História

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O primeiro empreendimento


Em 1785, já na cidade de Dillenburg (perto de Giessen, no Hesse), nasceu Georg Philipp Gail. O pai era comerciante ali, e Georg Philipp seria o primeiro dos grandes industriais da linhagem, iniciador da história da Gail. Não muito depois, Georg Philipp, seguindo o costume da época, saiu da casa paterna para fazer seu aprendizado profissional em outras cidades. O trabalho no comércio de produtos coloniais (importados das possessões europeias na América, África e Ásia) e numa fábrica de artigos de fumo lhe proporcionou conhecimentos de administração. Naquela altura, o fumo já estava bastante disseminado entre os europeus. Originário das Américas, chegara ao Velho Mundo no começo do século 17 e se tornara artigo de muita procura. Georg Philipp radicou-se em Giessen e, em 27 de janeiro de 1812,fundou a primeira fábrica de fumo e rapé da cidade, com oito experientes funcionários vindos de Dillenburg. O ano marcaria igualmente o começo do fim de Napoleão, vencido em sua desastrosa tentativa de conquistar a Rússia. A nova manufatura de Georg Philipp vinha obtendo elevado lucro desde o início. Seu sucesso foi de grande importância para Giessen, pois atraiu outros fabricantes àquela cidade do grão- ducado de Hesse, transformando-a em polo da indústria do fumo. Georg Philipp se destacaria como uma das personagens emblemáticas de Giessen. Poucos anos após ter-se fixado na cidade, foi aceito na exclusiva associação comercial e, em 1822,tornou-se o primeiro prefeito eleito de Giessen, cargo do qual pediria afastamento em 1824. Embora Georg Philipp alegasse razões de saúde, o verdadeiro motivo deve ter sido a sobrecarga de trabalho, pois a fábrica crescia em ritmo tão acelerado que logo as primeiras instalações ficaram pequenas e foi preciso mudar para um imóvel muito maior.

Expansão para o além-mar

Georg Philipp também comprou sua primeira máquina a vapor, que permitiu considerável aumento da produção. Na década de 1840, a Gail já fabricava não só rapé e fumo de cachimbo,como também charutos – item que gerou extraordinária expansão da empresa. No inverno de 1846-7, Georg Philipp tomou a decisão de fundar em Baltimore (Maryland) uma empresa que compraria matéria-prima para si e para terceiros e se dedicaria a negócios de exportação e importação. No contato com as comunidades alemãs nos EUA, Georg Philipp também detectou grande potencial de mercado para os produtos de fumo mais ao gosto germânico e, assim, decidiu estabelecer uma fábrica local. Em 1850, a gama de artigos da Gail foi reforçada com o fumo de mascar. Na década anterior, o aumento da produção na Gail, a chegada de concorrentes e o trabalho essencialmente manual já haviam causado escassez de mão de obra, e parte da fabricação se transferiria para o campo. Em 1852, a empresa estabeleceu num antigo mosteiro, o Marienschloss, a primeira de suas filiais fabris. Esse prédio no vilarejo de Rockenberg, menos de trinta quilômetros ao sul de Giessen, serviria durante alguns anos de base para a produção da Gail. Em 1854, ela abriu outra filial em Rockenberg, e, três anos depois, surgiu a filial de Rodheim, a sete quilômetros de Giessen. Com isso, a Gail se mostrou pioneira na transferência de manufaturas para localidades menores e para a zona rural, prática que só se tornaria comum na Alemanha a partir dos anos 1860. Em 1862, a empresa comemorou o cinquentenário. A festa foi adiada por causa do falecimento de Maria Gail, esposa de Georg Philipp, pouco antes do aniversário da fundação. Mas, na data em que enfim se celebraram aqueles primeiros cinquenta anos, serviu-se comida e vinho à vontade, com a presença dos Gail, dos funcionários administrativos e dos trabalhadores fabris.

A segunda geração: o trabalho em prol da indústria

Em 1865, faleceu Georg Philipp Gail, homem que testemunhara e produzira avanços notáveis em seus quase oitenta anos de vida. Os filhos Georg Karl e Georg Ferdinand assumiram as responsabilidades na empresa. Quatro anos depois, entretanto, Georg Ferdinand preferiu dedicar-se às atividades políticas e se retirou do negócio. Georg Karl (ou simplesmente Karl,como o chamavam) ficou sozinho na direção e administrou a Gail com muito sucesso, mesmo durante os difíceis meses da Guerra Franco-Prussiana (1870-1). Difíceis e dolorosos: nesse conflito, Georg, o filho mais velho de Karl, sofreu ferimentos fatais. Em 1877, de modo análogo ao que o pai fizera três décadas antes, Karl levou o filho e o sucessor Wilhelm para uma viagem de negócios aos EUA e a Cuba. Ficaram um ano na América,estudando o cultivo e o mercado do fumo. Essa longa viagem ampliou e fortaleceu a visão denegócios de Wilhelm, ajudando a fazer dele o segundo mais importante empreendedor dadinastia Gail, atrás apenas do fundador.

A terceira geração: a fundação da Gail’sche Dampfziegelei und Thonwarenfabrik

Em 27 de janeiro de 1882, no aniversário de setenta anos da empresa, faleceu Georg Karl Gail. Tinha 63 anos. O filho Wilhelm e o genro Erich Wasserschleben cuidaram então de conduzir a empresa. Por essa época, a jovem germano-americana Wilhelmine Mahla, pianista talentosa, saíra dos EUA para uma viagem de estudos pela Europa. Visitando parentes em Giessen, conheceu Wilhelm Gail, que era uma personalidade cativante e carismática. Os dois se apaixonaram e, em 1883, casaram em Chicago. Em 1885, quando Wasserschleben se desligou da empresa, Wilhelm passou a administrá-la sozinho. Tinha apenas 31 anos. Dois anos depois, em carta a seu irmão Karl para descrever as festividades do 75 aniversário da Gail, ele expressou a consciência da grande responsabilidade que assumira e o desejo de mostrar-se digno do cargo que ocupava. Wilhelm Gail acabou comprando a olaria em construção. E foi assim que ele deu o segundo passo mais importante na história das empresas Gail: após os longos e bem sucedidos anos dedicados à indústria do fumo, Wilhelm iniciou a família num novo segmento fabril, a cerâmica.

  

Em 14 de outubro de 1891, Wilhelm fundou a Gail ’sche Dampfziegelei und Thonwarenfabrik (Olaria a Vapor e Fábrica de Cerâmica Gail). O industrial chamou um engenheiro especializado para elaborar novas plantas, de modo que se reconstruísse a fábrica e se ampliasse o forno. Seguindo a recomendação de outro engenheiro (Raimund agenstein), Wilhelm construiu prédio de três andares para a secagem dos tijolos e telhas, instalou transportador de argila por gôndolas em cabos de aço, escavou lago para resfriamento e abastecimento de água e areia, fez a ligação com a malha ferroviária local e adquiriu locomotiva de cem HP. Enquanto não se concluíam as obras, a olaria anterior, provisória, continuava funcionando e fornecia o material de construção necessário. Em 1893, Wilhelm adquiriu também a fábrica de cerâmica de Georg Koch e concluiu a reforma e ampliação da olaria a vapor. No mesmo ano, a Gail esteve presente à famosa Exposição Universal de Chicago com um modelo de sua olaria a vapor, apresentado pela Associação dos Engenheiros Alemães (VDI). Esse modelo foi também levado à Exposição Comercial e Industrial da Turíngia, em Erfurt,e depois doado ao Deutsches Museum, em Munique (o maior museu de tecnologia do mundo). E,numa mostra comercial em Alsfeld, na região de Giessen, o pavilhão erguido com cerâmica Gail se tornou a grande atração. Por fim, visitantes americanos demonstravam igualmente muito interesse. Em 1901, a construção desse forno para esmaltação colorida possibilitou fabricar tijolos vítreos de cerâmica ou clínquer (e o forno, apesar de apenas provisório, mostrou-se muito capaz e operou até 1935). A torrinha do relógio no parque dos Gail em Rodheim e a piscina pública de Giessen foram algumas das primeiras obras a usar o novo produto.

A Gail e o Jugendstil

A expertise adquirida já nos primeiros anos criou as condições para a importante participação da Gail nas obras e artefatos do Jugendstil – literalmente, o Estilo da Juventude, um movimento artístico que se iniciou na Alemanha na segunda metade da década de 1890 e era contemporâneo e semelhante ao Art Nouveau. Em 1901, a Gail participou da primeira exposição dos artistas da Mathildenhöhe. A mostra, fundamental na história do Jugendstil, chamou-se Um documento da arte alemã. Em 1902, a empresa aprimorou ainda mais seus produtos e criou aquilo que consideravam impossível: em trabalho conjunto com um laboratório químico-cerâmico de Berlim, realizou o primeiro projeto de esmaltação em forno circular. O estande da Gail na Primeira Exposição da Indústria da Argila, Cimento e Cálcio (Berlim, 1905) também mostrou obras de arte cerâmica com cores especialmente desenvolvidas. No mesmo ano, o grão-duque Ernesto Luís desposou a princesa Leonor de Solms-Hohensolms- Lich. Para comemorar esse fato, ergueu-se na Mathildenhöhe a Hochzeitsturm (Torre do Casamento), e a Gail fabricou para ela um revestimento em tom violeta especial. A Hochzeitsturm ficou pronta em 1908 e se tornaria um marco urbano de Darmstadt. Naquele momento, estava já definitivamente comprovada e consolidada a vocação da Gail para produzir cerâmicas customizadas, materializando as visões especificadas pelos artistas.

O primeiro centenário

Em 1912, quando Georg Gail (filho de Wilhelm) se tornou sócio da Gail, ela estava fechando grandes pedidos com construtoras, como o fornecimento de cerâmicas para as fachadas e o acabamento interno de um grande hospital em Mannheim (Baden- Württemberg) e da estação ferroviária de Friedberg (Hesse). Naquele ano, Wilhelm Gail viveu outras duas grandes alegrias: os festejos do centenário da empresa e o recebimento do título de doutor honoris causa, que a Universidade de Giessen lhe concedeu por seus méritos na pesquisa técnico-científica e na formação e manutenção de institutos e acervos, como o Museu Etnográfico, a Coleção Wilhelm Gail e a célebre Coleção de Papiros de Giessen. A produção industrial foi retomada apenas com enormes dificuldades, e a família Gail lidava com os percalços como podia. Só havia carvão de menor qualidade, e por isso Wilhelm teve de equipar as caldeiras com sopradores inferiores. Em 1920, a fim de aportar mais capital, ele mudou a razão social para Wilhelm Gail’sche Tonwerke AG (Cerâmica Wilhelm Gail SA), empresa cuja finalidade era – a fabricação e venda de produtos de olaria e de produtos de argila e porcelana de todos os tipos, bem como sua compra e venda em estado bruto e beneficiado, mais a extração e beneficiamento de minerais para as finalidades acima e o aproveitamento dos subprodutos resultantes da fabricação –. A marca, entretanto, continuou conhecida do grande público como simplesmente Gail. A participação acionária ficava reservada à família. O dr. Wilhelm Gail se tornou presidente do Conselho Diretor, e seu filho Georg, o suplente.


A quarta geração: o entreguerras, o segundo conflito mundial e a reconstrução

Em 1925, faleceu Wilhelm Gail, aos setenta anos. Georg Gail, quarenta, tornou-se então o presidente do Conselho Diretor. Durante a Primeira Guerra Mundial, como oficial do Exército alemão, Georg conhecera a futura esposa, Irena von Benislawski, em Vilna, capital da Lituânia. A Gail teria participação importante numa mostra da indústria cerâmica que se realizou em Leipzig (1926) e em exposições que se fizeram em Hamburgo, Leipzig e Berlim para divulgar cerâmicas para fachadas. Entre 8% e 10,5% dos alemães pereceram na Segunda Guerra Mundial. Nesse número, incluía-se o herdeiro da Gail, que, nascido em 1922, chamava-se Georg como o pai. Convocado para o Exército, o rapaz morreu na Rússia em 1942. De 1940 a 1945, a aviação anglo-americana cruelmente despejou mais de 1,5 milhão de toneladas de bombas sobre a Alemanha, devastando cidades inteiras. Giessen, por exemplo, foi praticamente demolida pelos bombardeios, com 90 % do centro urbano destruído por completo. Muito antes disso, logo após a guerra, a Wilhelm Gail’sche Tonwerke, destruída pelos bombardeios aliados, teve de ser reerguida. Para tanto, precisou contratar e treinar novos operários e só retomou a produção em 1947. Em 1949, com a indústria a pleno vapor já fazia dois anos, a Gail começou a modernização da fábrica e instalou novo forno.


A quinta geração: a expansão para o Brasil

Em 8 de abril de 1950, o Dr. Georg Gail faleceu dias antes de completar 66 anos. Como o filho morrera na guerra, a condução dos negócios se transferiu para a filha Irene, casada com o dr. Walter Rumpf. Em 1951, quando Walter assumiu a presidência executiva da cerâmica e do grupo Gail, Irene se tornou presidente do Conselho Diretor. Com sua visão e sua fluência em vários idiomas, apoiava o marido na condução da Gail para os mercados externos. Sob a direção de Walter, a marca seguiu crescendo e consolidando-se, com a produção concentrada em grés, porcelanatos, revestimentos cerâmicos extrudados e uma gama de peças especiais. Em 1956, a fábrica alemã forneceu o revestimento da piscina olímpica de Melbourne, a primeira daquelas para as quais supriria material em Olimpíadas (depois viriam as dos Jogos de Munique, em 1972; Montreal, em 1976; Moscou, em 1980; Seul, em 1988; e Barcelona, em 1992).Em 1o de julho de 1966, já encerradas as atividades no ramo dos charutos havia três anos,a empresa comemorou seus 75 anos de presença no segmento cerâmico. A Wilhelm Gail’sche Tonwerke se apresentava como um dos maiores fabricantes de cerâmica para construção da Europa. Internacionalmente, estava representada na Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, EUA, Grécia, Holanda, Itália, Luxemburgo e Suíça e nas novas nações da África ocidental.


Em 1963, a família Gail decidiria encerrar o fabrico de charutos, sem muito futuro na Alemanha, e concentrar todos os esforços na produção cerâmica.
Entre as obras mais prestigiosas da década seguinte, estariam as já mencionadas piscinas para as Olimpíadas de Munique e Montreal; o hospital de Caltagirone, cidade siciliana famosa justamente pela cerâmica e pela terracota produzidas ali; e o túnel Elbe 2, em Hamburgo, com cerâmica esmaltada antirreflexiva. Em 1977, a empresa passou a chamar-se Gail AG Architektur-Keramik (Gail Arquitetura- Cerâmica SA) e introduziu um produto inédito: o Keraflair, placa decorativa de grande formato. Walter concluiu então que era chegado o momento de fazer a produção atravessar as fronteiras não só da Alemanha, mas também da Europa (como já acontecera em 1850, com a abertura da fábrica de fumo de Baltimore). Assim, a Gail comprou uma cerâmica na África do Sul e resolveu investir no Brasil, que vivia anos de crescimento excepcional. Em 1971, chamou a atenção de Walter um anúncio de jornal sobre a fábrica de cerâmica que estava à venda em Guarulhos, na Grande São Paulo. Era a Gressit, que produzia tanto revestimento para fachadas quanto piso industrial em duas cores, muito forte e resistente. Do pequeno forno tipo túnel, saíam 30 mil metros quadrados por mês. Em 5 de janeiro de 1972, Walter adquiriu a Gressit. Assim que o contrato de compra foi assinado, a matriz alemã iniciou grandes investimentos para sanear a fábrica de Guarulhos. O trabalho mais intenso envolveu a transferência de tecnologia.
Michael chegou a São Paulo em 1972. Poucos meses depois, vieram Kurt Hannemann, engenheiro cerâmico com muitos anos de experiência, e outros técnicos da Gail, que se impressionaram com o tamanho e o movimento da metrópole. Michael Rumpf Gail assumiu a filial brasileira, que de início se chamou Gressit-Gail. Ele dirigiu a reforma da fábrica, a implantação da tecnologia alemã e a reorganização da estratégia empresarial.

A consolidação da empresa no Brasil

Com tanto trabalho por fazer, os seis meses de permanência previstos para Michael Rumpf Gail viraram oito anos. Em 1980, nessa fase de crescimento da filial brasileira, Michael Rumpf Gail foi chamado de volta à matriz. O pai, que liderara a empresa durante 29 anos, tendo encarado os anos do pós-guerra e o difícil trabalho de reconstrução, resolvera aposentar-se. Agora, o filho deveria sucedê-lo em Giessen como presidente da Gail AG. Os produtos Gail logo revestiriam importantes obras no país, como a reforma do aeroporto Santos Dumont, no Rio; a piscina da Universidade de São Paulo; o túnel da avenida Nove de Julho, na cidade de São Paulo; o Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida do Norte (SP); e a praça Israel Pinheiro (conhecida com praça do Papa), em Belo Horizonte. Antes de retornar para a Alemanha, Michael pedira a Ruben Manuel Villa Serrat, diretor financeiro da Gail – Arquitetura em Cerâmica, que assumisse a presidência dessa empresa. Foi uma escolha excelente num momento decisivo para o desenvolvimento dos negócios no Brasil. A gestão de Ruben teria ótimos resultados, e a marca Gail se consolidou e ganhou destaque no mercado brasileiro, estabelecendo representantes em todo o país, suprindo grandes obras e conquistando contratos de fornecimento exclusivo a multinacionais importantes, entre elas as lojas da rede McDonald’s (depois seguida por outros gigantes do fast food, como a Subway, a Pizza Hut e a T.G.I. Friday’s). Também cresceriam rapidamente as exportações para mercados como os EUA, Hong Kong, a Áfricado Sul e a América Latina. 

Pioneira - na informática

Nos anos 1980, quando se introduziu tecnologia eletrônica e digital nas empresas, a Gail – Arquitetura em Cerâmica foi pioneira ao aderir ao plano governamental brasileiro de informatização. Em 1984, a Política Nacional de Informática (PNI) estabeleceu uma reserva de mercado na área para as empresas de capital local. Essa reserva se destinava a estimular o desenvolvimento daquela indústria no país protegendo-a da concorrência externa. O processamento eletrônico marcou uma mudança radical na cultura da Gail – Arquitetura em Cerâmica, com excelentes resultados. Tanto que o exemplo foi seguido por outras indústrias de Guarulhos e região, que viram a Gail como referência em informática, verdadeira vitrine do sistema e do equipamento. 

A sexta geração: Acreditando no Brasil

Em Giessen, Michael Rumpf Gail fomentava o crescimento da Gail AG, que em 1982 inaugurara uma unidade fabril que era então considerada uma das mais modernas da Europa, oferecendo uma linha prensada em formato grande, com queima rápida. Graças a essa e outras iniciativas, a empresa se tornou um dos maiores fabricantes mundiais de cerâmica de revestimento. Durante os anos de presidência da Gail AG na Alemanha, ele acompanhara em suas frequentes visitas a Guarulhos o impressionante desenvolvimento da filial brasileira. Intuía que, nas décadas seguintes, a extensão geográfica, o crescimento demográfico e as carências habitacionais e infraestruturais abririam no Brasil grandes possibilidades para empreendedores competentes.

Em 1988, deu-se um desdobramento fundamental para o futuro. O excelente posicionamento da Gail AG no mercado internacional atraiu a atenção do grupo Inax. Este, sediado na cidade japonesa de Tokoname, era na época a companhia de maior faturamento mundial em produtos cerâmicos e se interessou em associar-se à Gail. Após muita reflexão, Walter, Irene e Michael viram que a proposta abria inesperadas oportunidades para a empresa e a família. Walter estava aposentado, e Michael criara fortes raízes no Brasil (antes de 1980, ele já se naturalizara brasileiro) e sonhava dedicar todo o seu tempo à Gail paulista, sentindo que o futuro da empresa estava no país sul-americano. Assim, ainda em 1988, formou-se na Alemanha o grupo Gail-Inax. Aspecto mportantíssimo: não houve a inclusão da parte brasileira da Gail, que permaneceu de propriedade da família. Para garantir uma transição sem rupturas na matriz, Michael se comprometeu a permanecer mais alguns anos como presidente em Giessen. Três anos depois,quando do centenário da Gail no ramo cerâmico, uma publicação da empresa fez referência à mudança acionária e à atuação empreendedora de Michael: Gail internacional, 1980-1990. Em 1982, o dr. MichaelRumpf Gail recebe do pai a direção da empresa. Sob seu comando, a orientação estratégica da empresa Gail é firmemente direcionada para a arquitetura em cerâmica. Na sexta geração da empresa familiar, ele é a força motriz responsável pela orientação da Gail no mercado mundial. Gail, perspectiva 1990-2000. Com seu engajamento, o dr. Michael Rumpf Gail mostra uma nova época da arquitetura em cerâmica. A entrada do maior fabricante mundial de cerâmica, a Inax Japan, como sócio significa a transferência internacional de know-how, a cooperação, a abertura mundial dos mercados e a comunicação global. 

A mudança definitiva para o Brasil

No começo da década de 1990, a fábrica de Guarulhos passaria por outro processo de modernização e adotaria a tecnologia, nova à época, de fornos a rolo para queima rápida de extrudados, melhorando a eficiência dos produtos. Em 1991, para grande pesar de Michael e de todos os colaboradores da Gail – Arquitetura em Cerâmica, o presidente Ruben Villa faleceu. Um novo presidente passou a cuidar das decisões cotidianas até que, três anos depois, como acertado na assinatura do contrato com os japoneses, Michael deixou a Gail-Inax e voltou para São Paulo. Sentia que sua presença e sua visão seriam relevantes para o crescimento da empresa no Brasil. A Gail-Inax ficava assim definitivamente para trás, e a narrativa, doravante, refere-se tão somente à Gail – Arquitetura em Cerâmica, a qual representa uma trajetória empresarial familiar e ininterrupta que se originou na Alemanha em começos do século 19 e se transplantou in totum para o Brasil nos anos 1990. A grande procura pelos produtos Gail exigiu novos investimentos em equipamento para ampliar a produção de placas, esmaltadas ou não. Em seguida, já com essa grande capacidade instalada, Michael pôde concentrar-se na reorganização empresarial. Com muito êxito: em todo o mundo, a Gail – Arquitetura em Cerâmica foi a primeira fabricante de revestimentos extrudados a receber a certificação ISO 9001, obtida em 1998. Na sequência, seus produtos obteriam a certificação ISO 13006:1999. E, na primeira metade do novo século, a Gail se tornou a primeira cerâmica brasileira com a certificação ISO 9001:2000. Na década de 1990, as qualidades e os efeitos estéticos da Gail se evidenciaram ainda mais quando coleções suas foram adotadas em obras de muita projeção e destaque, das quais citaremos só alguns exemplos notáveis: a Arquitetura Natural nos edifícios Lyon (São Paulo) e Millennium Work Tower (Ribeirão Preto, SP);a Combicolor no Parque da Mônica (São Paulo), com variedades desenvolvidas especialmente para ele; e a Piscinas em dois grandes parques aquáticos, The Waves (São Paulo), o primeiro do Brasil, e Wet ‘n Wild (Itupeva, SP), um dos maiores parques temáticos do gênero no país. Em 2002, por ocasião dos trinta anos da Gail no Brasil, Walter Rumpf esteve em Guarulhos e, ao lado do filho, teve o prazer de inaugurar uma nova unidade industrial, destinada a peças especiais. A Gail – Arquitetura em Cerâmica, com base nos valores essenciais da tradição e da credibilidade que sempre estiveram presentes nas empresas da família, crescia de forma segura e robusta, valorizando sua marca no mercado brasileiro e global. Três anos depois, Walter, o grande responsável pela reconstrução e expansão do pós-guerra na Alemanha e, junto com Michael, pela visionária expansão da empresa para o Brasil, faleceu. Tinha noventa anos.

Linhas de produto

Além da oferta de suas linhas, a Gail continua customizando produtos de acordo com o projeto arquitetônico, seguindo a tradição iniciada por Wilhelm Gail em 1891. Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, a cerâmica Gail, combinando as três coleções – Arquitetura Natural, Combicolor e Piscinas –, revestiu o estádio olímpico João Havelange, no Engenho de Dentro, e o grande parque aquático Maria Lenk, na Barra, composto de piscina olímpica, piscina de aquecimento e tanque de saltos ornamentais. 

Fachada ventilada

Em 2009 sempre investindo muito em inovação, a Gail – Arquitetura em Cerâmica reforçou ainda mais sua posição de referência no ramo ao introduzir pioneiramente no Brasil a fachada ventilada com cerâmica extrudada de grande formato. Com o nome comercial KeraGail, esse produto de altíssima performance chegou ao país graças à parceria com a empresa alemã Buchtal, que revolucionara o mercado mundial ao lançar a primeira fachada ventilada cerâmica com as características citadas e transferiu essa tecnologia para a Gail.

Nesse último aspecto, cumpre ressaltar que as questões ambientais são objeto de cuidado especial no sistema KeraGail. Os painéis cerâmicos, em sua composição, utilizam de 15% a 20% de materiais reciclados. Ademais, eles proporcionam tanto ganhos na eficiência energética quanto melhoria no conforto ambiental: com seu afastamento mínimo de seis centímetros, mais o desenho macho-fêmea das peças (o que permite juntas abertas, ventilando e simultaneamente protegendo contra chuvas torrenciais), cria-se um canal de ventilação que pode não só reduzir em até 50% os custos com climatização interna, mas também restringir o processo de condensação dentro do edifício. Outro extraordinário diferencial do KeraGail é o inovador e exclusivo tratamento da superfície das placas com dióxido de titânio. Tal substância potencializa uma reação química entre a luz, o oxigênio e a umidade, num processo semelhante à fotossíntese; essa fotocatálise gera uma ação antibacteriana, eliminando odores e criando uma superfície hidrófila (ou, como se diz simplesmente, amiga da água), o que faz com que a chuva crie um filme que lava a fachada.

A Força da Marca

Em 2010, em mais uma prova do prestígio da Gail – Arquitetura em Cerâmica no Brasil, Michael Rumpf Gail foi eleito para a presidência da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica Para Revestimento (Anfacer). Ainda nos tempos de Giessen, Michael já atuara como presidente da associação alemã de revestimentos cerâmicos extrudados. Agora, como presidente da Anfacer, Michael amplia ainda mais sua visão do setor e valoriza sobremaneira as empresas brasileiras de revestimento, que, comandadas por executivos extremamente capacitados, igualaram ou mesmo superaram as melhores do cenário internacional. No mais, Michael encara seu trabalho na Anfacer como uma forma de retribuir parte do que ele e a Gail receberam em sua nova e generosa pátria.

Duzentos anos de pioneirismo, qualidade e confiabilidade

Em 2012 o bicentenário é motivo de grande orgulho para a Gail. Afinal, vir crescendo durante dois séculos não é tarefa fácil. E permanecer sob a liderança ininterrupta de uma mesma família, menos ainda. Neste início de milênio, quando inúmeras organizações familiares buscam sobreviver mediante a abertura de capital ou a associação com fundos de investimento, a Gail – Arquitetura em Cerâmica está entre as poucas que conseguem aliar a preservação dos valores seculares à inovação e ao pioneirismo. Desde 1812, quando Georg Philipp Gail enfrentou e venceu enormes dificuldades para fundar e solidificar seu empreendimento, todas as gerações precisaram encarar obstáculos variados, diferentes, específicos. Problemas familiares, escassez de capital e de mão de obra, guerras e revoluções não detiveram o crescimento da empresa. Guiadas pela coragem, pela capacidade de liderança e por uma visão tão ampla quanto internacional, as sucessivas gerações conseguiram encontrar caminhos para prosperar.